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terça-feira, 22 de janeiro de 2019

De tudo ao meu amor serei atento




Ah, o flerte, as paixões, a conquista. Nada como esse período de paquera para liberar a criatividade e o romantismo, não é mesmo?

thelicenseplatesite.com

E se você acha que empregar esforços em um relacionamento é um traço exclusivamente humano, se engana. Na natureza há várias espécies que se dedicam realmente ao parceiro, seja oferecendo proteção, cuidados e fidelidade, ou simplesmente caprichando nas cantadas. Acompanhe 5 exemplos de como nossas táticas de namoro podem estar mais próximas das de nossos primos bichos do que imaginamos.


1- “E que seja eterno enquanto dure” 
(V. de Moraes)

Não é só o ser humano que se entrega relações sérias e longas.

revistagalileu.globo.com

O arganaz-do-campo, este simpático roedor que habita as regiões da América do Norte, se torna um verdadeiro parceiro. Logo após o acasalamento, o casal andará sempre junto e cuidará da cria da maneira mais dedicada possível. Mesmo após a morte do companheiro, apenas 20% desses animais procuram outro par. 


2- "Amo-te afim, de um calmo amor prestante" 
(V. de Moraes)

 fazendavisconde.com.br


Nos relacionamentos humanos modernos não tem mais essa de "papel de homem" e "papel de mulher", assim como ocorre com os cisnes brancos,  que cooperam entre si na construção do ninho e incubação dos ovos.


3- "E em seu louvor hei de espalhar meu canto" 
(V. de Moraes)

Não que os humanos saiam por aí literalmente dançando e cantando como forma de paquera, mas uma boa "cantada" e alguma ginga podem fazer toda a diferença para quebrar o gelo. Pois bem, os albatrozes são capazes de flertar bastante, com danças e belas coreografias e podem ficar juntos por décadas. 

O gibão, uma espécie de primata que passa horas nos cuidados do outro, emite um canto operístico para impressionar suas conquistas. Dizem que um casal de gibão pode até entoar um dueto em perfeita sincronia. Uau, hein!




Nesta filmagem amadora, você acompanha o canto de um gibão-de-mãos-brancas, diretamente da floresta em Laos (numa paisagem belíssima, por sinal).


4-  "Respiro o vento, e vivo de perfumes" 
(A. de Azevedo) 

Quem nunca pagou um mico na paquera que atire a primeira flor, poema ou bicho de pelúcia. Bem, não é que estes bichos estejam fazendo o ridículo, mas pode-se dizer que seu lado Don Juan seja considerado por nós humanos um tanto... peculiar.

pinterest

Estamos falando do hipopótamo. Para chamar a atenção da fêmea, ele gira a cauda como uma hélice atirando urina e fezes para todos os lados. E como isso funciona! Depois do ritual, o casal parte para as preliminares e costuma dar um mergulho antes de partir para os finalmentes. Ufa, menos mal.


5- "Pedras preciosas, quero me enfeitar" 
(Samba enredo Unidos da Tijuca, 1999)

joyofanimals.com

Se um humano passa repentinamente a se perfumar em excesso, a andar muito preocupado com a aparência, ou a se enfeitar demais, a suspeita é de paixão à vista! Ah, mas não somos só nós que cuidamos do visu quando estamos apaixonados.

O  pavão é famoso por valorizar as plumas na hora da sedução. O macho elabora um canto introdutório e abre a plumagem majestosa para atrair a fêmea, que leva em consideração as cores mais vivas, a força e viço das penas. Convenhamos, é mesmo uma beleza, não?

pixabay

No mundo das aves, parecer mais belo ou mais alto e forte também parece fazer a diferença. Pombas machos costumam inflar o peito, voar ruidosamente e balançar as cabeças. Voos em espiral descendente e arrulhos são armas de cortejo dos machos estreantes no mundo do namoro. Alisar as próprias penas e as do parceiro é um sinal claro de que as coisas vão muito bem obrigada com o casal. Após o acasalamento, o macho apresenta vários locais para o ninho, mas é a fêmea quem escolhe o mais adequado. Assim como os cisnes brancos, ambos se encarregarão da construção do ninho e da proteção dos ovos e dos filhotes, afinal, cooperatividade é tudo!


Links consultados:

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terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Aqui tem amor!




Foto: boredpanda.com
Poucas coisas ilustram tão bem o companheirismo de um animal de estimação quanto as histórias de amizades entre eles e seus tutores, algumas vezes pessoas com pouquíssimos  recursos, mas com o que há de mais essencial nessa relação: reconhecimento e amor. 


Foto: mydogeatsfirst.org


Foto: www.vice.com/



Em 2013, matéria do portal do Globo Rural apontava a cumplicidade entre moradores de rua e seus cães, responsáveis por salvarem a vida dos donos e, certamente, por aliviar o peso do cotidiano enfrentado por homens e mulheres que, não raro, têm nesses animais os únicos amigos, a única família.

Foto: Alexandre Severo/Ed. Globo. Matéria da Globo Rural.
Na foto, o morador de rua Samuel e seus cães.
Um deles já salvou sua vida durante um assalto.


Em 2018, o The Gardian contou a história de 4 moradores de rua, e os relatos reforçavam que a presença de animais de estimação era essencial para a existência dessas pessoas. Richard Dyer, de 52 anos, por exemplo, disse ter sua vida salva por dois furões aos que resgatou. Diagnosticado com transtorno bipolar e tendências suicidas, Dyer afirma que os animais o fizeram superar essas últimas e o ajudam a seguir em frente.

Foto: Annabel Clark, para a matéria do The Guardian.
Na foto, Richard Dyer e seus furões.

Reconhecer o laço entre pessoas desamparadas e seus companheiros animais (na maioria cães) é uma questão que transcende a simpatia e se torna uma necessidade coletiva, social e política. 

Até 2016, apenas um abrigo na cidade de São Paulo aceitava moradores de rua e seus cães, o Abrigo Dom Bosco de Catadores, nos campos Elísios, mantido por uma instituição religiosa. Somente em maio de 2017, a prefeitura da inaugurou o primeiro Centro Temporário de Acolhimento com canil, na região do Brás.

Foto no interior do abrigo em 2016 para o site:
www.hypeness.com.br/

Fachada do Abrigo Dom Bosco.
O abrigo também presta auxílio na inserção social.

Para quem se interessar, a lista atualizada desses Centros municipais está no Site da Prefeitura. São 9 CTAs com baias/canis para animais, mas em algumas regiões as vagas são bem limitadas. Os abrigos estariam se organizando para instalação de telas a fim de receberem moradores com gatos. 

No ano passado, porém, a Revista Veja/SP noticiou que alguns canis-abrigos tinham pouca demanda, ao que a prefeitura culpou a falta de informação. Para os desabrigados, entretanto, há outras questões. Em alguns CTAs, não há divisão de baias e os cães acabam brigando e até contaminando outros cães. O simples fato de se separar do animal, que deverá ficar na área do canil e não com o dono, já é algo complicado. Segundo a entrevistada pela matéria da revista, Caroline Azevedo, gerente do albergue da Zona Oeste, "Muitos moradores de rua desistem de permanecer aqui ao ver que os animais ficarão no canil, e não com eles no quarto coletivo. O vínculo é muito forte.”


E isso tudo nos leva ao início deste post e à conclusão de que o amor entre homens e animais de estimação é um sentimento verdadeiro e, como tal, não se ressente em ser colocado acima de qualquer benefício pessoal.

Links consultados para este post:



1. Revista Globo Rural:   https://revistagloborural.globo.com/Colunas/planeta-bicho/noticia/2013/12/caes-aliviam-dura-realidade-de-moradores-de-rua.html
2. Periódico The Gardian: https://www.theguardian.com/us-news/2018/jun/16/homeless-people-pets-animals
3. Revista Veja SP: https://vejasp.abril.com.br/cidades/canis-abrigos-moradores-de-rua-pouca-demanda/
4. Link para consulta dos CTAs com canis disponíveis:  https://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/assistencia_social/cta/index.php?p=247879
5. Página do Facebook do primeiro abrigo a aceitar cães, atua até hoje. Conheça o trabalho do Abrigo Dom Bosco de Catadores em:   https://www.facebook.com/pages/Abrigo-Dom-Bosco-De-Catadores/370160786390277
6. Reportagem do Hypeness sobre o abrigo Dom Bosco:  https://www.hypeness.com.br/2016/06/neste-abrigo-em-sp-os-moradores-de-rua-podem-levar-seus-animais

Os links foram acessados em 14 de jan. 2018

domingo, 13 de janeiro de 2019

Reconhecido pelo cão- Vladimir Safatle





Nossa última testemunha de existência seria o inabalável amigo cão? Confira essa reflexão no magnífico 
texto de Vladimir Safatle para a Revista Cult.


"Reconhecido pelo cão



Quando Ulisses chega enfim à sua casa, ele chega travestido, por Atenas, sob a forma de um velho mendigo. Na soleira da porta de casa estava seu cão, Argo. No momento de sua partida, Argo era um filhote. Agora, velho e pulguento, ele não tem força sequer para ficar em pé. No entanto, quando Ulisses aparece, Argo não tem dúvida. Ele o reconhece e levanta, correndo trôpego em direção ao dono. Ulisses abraça seu cão cheio de pulgas e enfraquecido. O cão morre em seus braços, como quem estivesse apenas à espera de um reencontro.

O cão reconheceu Ulisses, mas sua mulher não. Mesmo tendo recoberto sua forma, isso depois da batalha com os pretendentes que haviam se apossado de sua casa, Penélope não está segura de ter a seu lado Ulisses, o marido pelo qual ela tanto esperou. Na verdade, Penélope precisa de uma prova, ela precisa testar a memória daquele que diz ser seu marido. É por meio da memória que se dará o reconhecimento, a partilha entre o certo e o incerto. Ulisses terá de mostrar que sabe do que, afinal, sua cama é feita. Ele terá de recitar, mais uma vez, as promessas de enraizamento que haviam constituído o leito que ele partilhara com sua mulher. O reconhecimento é, assim, uma recognição que se apoia na capacidade de síntese da memória.

Mas, para o cão, Ulisses não precisou mostrar nada. Para além das aparências, o cão aparece na Odisseia como o único capaz de reconhecer algo como o “ser bruto” de Ulisses. Eis um detalhe que não deveria nos deixar indiferentes. Pois ele nos coloca uma questão: haveria algo em nós que só é reconhecido através dos olhos de um animal? Se nem o amor da mulher que sempre esperou tinha certeza, se apenas o cão tinha certeza, então poderíamos nos perguntar de onde vem a certeza do cão. Pois talvez ele encontrasse sua certeza no resto de animalidade que existe em nós, ou seja, naquilo que para um grego é inumano, naquilo que não porta a imagem do homem.

Um “aquém” da individualidade


Não deixa de ser irônico pensar que, ao voltar para casa depois de um tempo incontável de exílio, é essa qualidade inumana que primeiro indica o retorno ao “meu lugar”. É isso que só é reconhecido entre os animais, ou seja, entre os que estão, de certa forma, aquém do homem, que funda um pertencimento singular. Aqui a singularidade está vinculada à capacidade que tenho de saber deixar visível o que não é exatamente humano, o que não é atributo da humanitas.

É interessante lembrar tal ponto porque estamos tão presos à procura de reconhecimento por outros sujeitos, precisamos tanto do assentimento fornecido por outros sujeitos que esquecemos como, muitas vezes, o que nos reconforta, o que nos diz realmente que estamos em casa é ser reconhecido por um animal, ser reconhecido por algo que, afinal, não é uma consciência de si. Os animais percebem os animais que ainda somos, eles nos lembram de um “aquém” da individualidade a respeito da qual nunca conseguimos nos afastar totalmente.


Talvez seja por isso que os seres humanos nunca conseguiram ficar totalmente longe dos outros animais. Mesmo no zoológico, mesmo domesticados, os outros animais lembram-lhe algo que ficou para trás, mas cuja importância é aterradora. Pois Ulisses certamente se sentiria o pior dos homens se nem sequer o cão soubesse quem ele era. Seria uma desterritorialização insuportável não ser reconhecido sequer pelo cão. Talvez não seja por outra razão que Freud, doente e aquebrantado ao final de sua vida, compreendeu que seu tempo acabara quando até seu cão dele se afastou, graças ao cheiro repulsivo que vinha de seu maxilar. Foi quando o cão lhe virou as costas que a última coisa que ainda lhe fazia suportar a vida desabou. Depois dessa recusa, ele não era mais ninguém. Ele sabia que não tinha mais lugar algum. Foi a partir desse momento que Freud morreu."


Texto originalmente postado em: https://revistacult.uol.com.br/home/reconhecido-pelo-cao/