Nossa última testemunha de existência seria o inabalável amigo cão? Confira essa reflexão no magnífico
texto de Vladimir Safatle para a Revista Cult.
texto de Vladimir Safatle para a Revista Cult.
"Reconhecido pelo cão
Quando
Ulisses chega enfim à sua casa, ele chega travestido, por Atenas, sob a forma
de um velho mendigo. Na soleira da porta de casa estava seu cão, Argo. No
momento de sua partida, Argo era um filhote. Agora, velho e pulguento, ele não
tem força sequer para ficar em pé. No entanto, quando Ulisses aparece, Argo não
tem dúvida. Ele o reconhece e levanta, correndo trôpego em direção ao dono.
Ulisses abraça seu cão cheio de pulgas e enfraquecido. O cão morre em seus
braços, como quem estivesse apenas à espera de um reencontro.
O
cão reconheceu Ulisses, mas sua mulher não. Mesmo tendo recoberto sua forma,
isso depois da batalha com os pretendentes que haviam se apossado de sua casa,
Penélope não está segura de ter a seu lado Ulisses, o marido pelo qual ela
tanto esperou. Na verdade, Penélope precisa de uma prova, ela precisa testar a
memória daquele que diz ser seu marido. É por meio da memória que se dará o
reconhecimento, a partilha entre o certo e o incerto. Ulisses terá de mostrar
que sabe do que, afinal, sua cama é feita. Ele terá de recitar, mais uma vez,
as promessas de enraizamento que haviam constituído o leito que ele partilhara
com sua mulher. O reconhecimento é, assim, uma recognição que se apoia na
capacidade de síntese da memória.
Mas,
para o cão, Ulisses não precisou mostrar nada. Para além das aparências, o cão
aparece na Odisseia como o único capaz de reconhecer algo como o “ser bruto” de
Ulisses. Eis um detalhe que não deveria nos deixar indiferentes. Pois ele nos coloca
uma questão: haveria algo em nós que só é reconhecido através dos olhos de um
animal? Se nem o amor da mulher que sempre esperou tinha certeza, se apenas o
cão tinha certeza, então poderíamos nos perguntar de onde vem a certeza do cão.
Pois talvez ele encontrasse sua certeza no resto de animalidade que existe em
nós, ou seja, naquilo que para um grego é inumano, naquilo que não porta a
imagem do homem.
Um “aquém” da individualidade
Não deixa de ser irônico pensar que, ao voltar para casa depois de um tempo incontável de exílio, é essa qualidade inumana que primeiro indica o retorno ao “meu lugar”. É isso que só é reconhecido entre os animais, ou seja, entre os que estão, de certa forma, aquém do homem, que funda um pertencimento singular. Aqui a singularidade está vinculada à capacidade que tenho de saber deixar visível o que não é exatamente humano, o que não é atributo da humanitas.
É
interessante lembrar tal ponto porque estamos tão presos à procura de
reconhecimento por outros sujeitos, precisamos tanto do assentimento fornecido
por outros sujeitos que esquecemos como, muitas vezes, o que nos reconforta, o
que nos diz realmente que estamos em casa é ser reconhecido por um animal, ser
reconhecido por algo que, afinal, não é uma consciência de si. Os animais
percebem os animais que ainda somos, eles nos lembram de um “aquém” da
individualidade a respeito da qual nunca conseguimos nos afastar totalmente.
Talvez
seja por isso que os seres humanos nunca conseguiram ficar totalmente longe dos
outros animais. Mesmo no zoológico, mesmo domesticados, os outros animais
lembram-lhe algo que ficou para trás, mas cuja importância é aterradora. Pois
Ulisses certamente se sentiria o pior dos homens se nem sequer o cão soubesse
quem ele era. Seria uma desterritorialização insuportável não ser reconhecido
sequer pelo cão. Talvez não seja por outra razão que Freud, doente e
aquebrantado ao final de sua vida, compreendeu que seu tempo acabara quando até
seu cão dele se afastou, graças ao cheiro repulsivo que vinha de seu maxilar.
Foi quando o cão lhe virou as costas que a última coisa que ainda lhe fazia
suportar a vida desabou. Depois dessa recusa, ele não era mais ninguém. Ele
sabia que não tinha mais lugar algum. Foi a partir desse momento que Freud
morreu."
Texto originalmente postado em: https://revistacult.uol.com.br/home/reconhecido-pelo-cao/

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